30 de janeiro de 2012

"FRAGMENTOS"

É muito bom encontrar pessoas que compartilham de mesmas idéias. Hoje, conversando com meu novo amigo - por hora virtual - Jorge de Jesus, tive a honra de admirar um de seus excelentes textos. De imediato perguntei se poderia publicá-lo aqui, no meu humilde espaço virtual. A resposta foi positiva, e aqui está, um belo trabalho, que compartilho com você, que, eventualmente caia nesta quase que anônima página.

MÁSCARAS


O que de fato o incomodava não era o excesso de máscaras dentro do guarda-roupa antigo, mas não saber quando usá-las. Apesar de suas máscaras serem quase sempre trágicas, de fortes tintas borradas nos mais puríssimos gessos, era um garoto alegre. Ao sair na rua, as pessoas não o reprovavam sequer com a cabeça, embora os olhos demonstrassem um brilho de natureza inquieta. Às vezes era quase inevitável irritar-se com o riso patético dos mendigos dispersos nas sinagogas, mas entendia com calma e doçura de rapaz que o sarcasmo viria até enquanto não se livrasse de seus rostos postiços. A necessidade de um rosto... Oh, Deus! A necessidade de um rosto que não se encontra em qualquer lugar! Vinte anos e ainda não tinha um rosto?! Todos os tipos de sua idade já tinham um rosto formado, mas ele não. Fragmentado, sutilmente picado pela máquina de moldar rostos, variava diariamente de faces que poderiam um dia ser sua. Houve porém que o sábado tinha chegado. E sábado é dia cruel. Após dele, o domingo triste logo vem. Era tempo de mudar de rosto, e no espelho olhava sua barba rala que precisava ser eliminada menos por vaidade. Assim o fez. De rosto limpo (seria o seu?), abriu o guarda-roupa. Brilhando no escuro, sinistras, as máscaras o olhavam com autonomia e soberba. Rapidamente apanhou um longo pedaço de madeira atrás da porta e com golpes nervosos, uma a uma quebrou. Exausto e suado, tornou-se a olhar no espelho, estranhou-se e nada disse. Após catar os fragmentos, jogando-os no lixo, apalpou a face. Havia tempo de aproveitar o dia. Como um estranho que desconhece o sol, ultrapassou a soleira da porta a fora; e sem que os transeuntes o olhassem fixamente, seu novo rosto o acompanhou para o resto da vida.

Jorge de Jesus - "FRAGMENTOS"

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